16/06/2026 15:32

A invasão das chuteiras rosas na Copa de 2026 mostra como as cores se tornaram ferramenta estratégica de desejo e visibilidade

Estrategista de marcas, Tamara Lorenzoni, analisa por que a escolha cromática das grandes fabricantes vai muito além da estética e revela uma mudança na construção de valor das marcas esportivas

 

A Copa do Mundo de 2026 ainda está em seus primeiros dias, mas uma tendência já se destaca nos gramados. Jogadores de seleções como Brasil, Alemanha, Estados Unidos, Japão, México, Coreia do Sul e Marrocos apareceram usando chuteiras em diferentes tonalidades de rosa, criando uma imagem visualmente marcante ao longo das primeiras partidas do torneio.

 

O curioso é que não houve uma ação conjunta entre as fabricantes. Após pesquisas realizadas individualmente, Nike, Adidas, Puma e New Balance chegaram à mesma conclusão: o rosa está entre as cores que oferecem maior contraste com o verde do gramado, aumentando significativamente a visibilidade dos atletas tanto para quem acompanha os jogos nos estádios, quanto para a audiência televisiva global. Por isso a aposta em seus principais lançamentos.

 

A relevância desse movimento é ainda maior porque a chuteira ocupa um espaço singular dentro do futebol profissional. Diferentemente dos uniformes das seleções, que seguem os contratos oficiais das federações, a chuteira é um dos poucos elementos em que os atletas podem exibir os patrocinadores de seus contratos individuais. Isso faz com que o produto funcione como uma vitrine própria dentro do jogo, transformando cada partida em uma disputa paralela por atenção, reconhecimento e valor de marca.

 

Para Tamara Lorenzoni, estrategista de marcas com atuação internacional, palestrante e especialista no mercado de luxo, o fenômeno evidencia uma transformação importante na forma como as marcas utilizam as cores como ferramenta estratégica. “Durante muito tempo, a cor foi tratada como um elemento estético. Hoje, ela funciona como linguagem. As grandes marcas entendem que uma escolha cromática é capaz de comunicar posicionamento, gerar reconhecimento instantâneo e criar diferenciação em ambientes altamente competitivos. Em eventos globais como a Copa do Mundo, cada detalhe visual passa a ter valor estratégico”.

 

Segundo a especialista, o fato de diferentes fabricantes terem chegado à mesma solução revela como dados, comportamento e branding estão cada vez mais conectados. “Não estamos falando apenas de gosto ou tendência. Existe pesquisa, análise de percepção visual e entendimento sobre como o cérebro humano reage a determinados estímulos. Quando várias marcas escolhem a mesma direção cromática, isso demonstra que elas estão respondendo a um mesmo diagnóstico sobre atenção, visibilidade e impacto”.

 

No mercado de luxo, onde a construção de desejo depende de elementos muitas vezes sutis, a cor ocupa um papel central há décadas. Casas como Hermès, Tiffany & Co. e Valentino transformaram determinadas tonalidades em ativos de marca reconhecidos globalmente, por exemplo.

 

“No universo premium, uma cor pode ser tão valiosa quanto um logotipo. Ela cria memória, reconhecimento e associação emocional. O que vemos agora no esporte é a aplicação desse mesmo princípio em uma escala de audiência gigantesca. A cor deixa de ser apenas um detalhe do produto e passa a fazer parte da estratégia de posicionamento”, explica Tamara.

 

A especialista destaca ainda que a popularização das transmissões digitais e dos conteúdos em redes sociais ampliou a importância desse recurso visual. “Hoje, uma chuteira não precisa se destacar apenas dentro do campo. Ela precisa funcionar em fotos, vídeos curtos, recortes para redes sociais e diferentes telas. A economia da atenção tornou a visibilidade um ativo extremamente valioso. E as cores são uma das ferramentas mais eficientes para conquistar essa atenção”.

 

Mais do que uma coincidência entre fabricantes concorrentes, a predominância do rosa nos gramados da Copa de 2026 revela como design, comportamento e estratégia de marca caminham juntos. Em um cenário cada vez mais disputado, a escolha de uma cor pode ser tão importante quanto a tecnologia do produto que ela reveste.

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