26/01/2026 18:55

Exposição que abre o calendário de 2026 da Casa Museu Eva Klabin revela, pela primeira vez, peças do acervo pessoal da colecionadora

“Beleza Habitada: Eva Klabin, moda e memórias” apresenta nova interpretação de peças de alta-costura, documentos, fotografias e pinturas como parte de seu legado de arte e vida cotidiana. Mostra será inaugurada no dia 31 de janeiro, no Rio

 

Retrato de Eva Klabin. c. 1930. Fotografia. Casa Museu Eva Klabin; conjunto Christian Dior, anos 1960, em exibição na mostra, que reúne mais de 130 itens de moda e acessórios. Fotos

A compreensão da beleza como experiência cotidiana — e não apenas como contemplação — atravessa a trajetória de Eva Klabin e estrutura a exposição “Beleza habitada: Eva Klabin, moda e memórias”, que abre o calendário de 2026 da Casa Museu Eva Klabin, no Rio de Janeiro. A mostra propõe uma leitura integrada entre arte, moda, mobiliário, objetos do cotidiano e vida social, revelando como a colecionadora construiu, ao longo de décadas, uma síntese estética e singular entre viver e criar. A exposição será inaugurada no dia 31 de janeiro (sábado), das 16h às 20h, com entrada gratuita, e permanece até 24 de maio. A visitação acontece de quarta a domingo, das 14h às 18h.

 

Com curadoria de Helena Severo e Brunno Almeida Maia, e expografia de Leandro Leão, a exposição apresenta, pela primeira vez ao público, um amplo conjunto de peças do acervo pessoal de Eva Klabin — entre roupas, acessórios, objetos íntimos e documentos — articulado às obras de arte da coleção permanente da Casa. Roupas, chapéus, sapatos, luvas, cartas, convites, menus, listas de convidados, livros de ouro, recortes de imprensa e registros sonoros de amigos e familiares convivem nos ambientes da residência, reafirmando a moda como linguagem artística e parte constitutiva de uma experiência estética moderna.

 

Eva Klabin habitou a beleza como quem constrói um mundo. Entre coleções de arte, vestidos e outros objetos, sua casa tornou-se cenário de encontros, onde o viver cotidiano se elevou à experiência estética”, afirma Helena Severoque assina a curadoria ao lado de Brunno Almeida Maia, que considera que “a singularidade do acervo de indumentária reside na capacidade que Eva possuía de conjugar criações da modista Zulnie David com nomes da moda parisiense, revelando um espírito de colecionadora e a construção de uma individualidade própria em diálogo com a história da moda de seu tempo”.

 

A expografia é feita com cortinas de tecido branco ou transparente. Elas desenham um percurso ao longo da casa-museu, uma nova camada que dialoga com o espaço sem o descaracterizar. Ao vestir os ambientes com 570 metros desta matéria-prima, elas ordenam fluxos, servem de suporte para projeções ou textos curatoriais e, como fundos neutros, destacam peças do acervo. Já a identidade visual parte da geometria singular da fachada para criar uma tipografia sob medida, batizada de 'Eva', centro de todos os elementos gráficos”, explica o arquiteto Leandro Leão, que assina a expografia e identidade.

As irmãs Eva e Ema Klabin em viagem de cruzeiro pelo Mediterrâneo, 1973.

A mostra é organizada em cinco eixos curatoriais, que articulam colecionismo, vida social, cultura e moda como dimensões sempre presentes na trajetória de Eva Klabin. No eixo “Afinidades sensíveis” parte da herança modernista do século XX e apresenta a coleção como uma constelação de formas, materiais e linguagens — da arquitetura e do mobiliário às vestimentas, louças e obras de arte — relacionadas por aproximações formais, cromáticas e sensíveis, afirmando a moda como elemento ativo desse campo estético integrado. Artistas visuais como Frans Krajcberg (1921-2017), Lasar Segall (1889-1957), Carlos Scliar (1920–2001), Paulo Roberto Leal (1946–1991) e Emanoel Araújo (1940–2022) ganham destaque no eixo temático.

 

A casa surge como espaço de encontros, trocas e diplomacia cultural em “Modos de existir: Eva Klabin e o seu tempo”. O núcleo destaca episódios emblemáticos da vida social da colecionadora, como o jantar oferecido ao banqueiro e filantropo David Rockefeller, na década de 1970, cuja ambiência é recriada a partir de documentos, pratarias, louças e arranjos concebidos por Roberto Burle Marx. O eixo aborda ainda o cotidiano íntimo de Eva, seus hábitos culturais, a realização de eventos musicais em sua residência e as viagens de formação realizadas ao lado de sua irmã, Ema Klabin.

 

Obra de Roberto Burle Marx - Centro Cultural Sítio Roberto Burle Marx.

O eixo “Modos de colecionar” apresenta a trajetória de Eva Klabin como colecionadora ao longo de mais de quatro décadas, desde as primeiras aquisições realizadas em 1947, com Pietro Maria Bardi, até as últimas peças adquiridas antes de seu falecimento. O conjunto reúne obras e objetos de diferentes períodos e geografias, propondo uma leitura ampliada da história da arte, do Antigo Egito à arte moderna. A coleção de indumentárias integra esse núcleo como parte do mesmo gesto colecionador, afirmando um guarda-roupa vívido, coerente e sensível.

 

Em “A linguagem secreta dos objetos”, o foco recai sobre fragmentos da cultura material que expressam memória, subjetividade e formação identitária. Objetos pessoais como chapéus, luvas, sapatos, cadernetas, diários, documentos e correspondências revelam gestos, hábitos e modos de viver no mundo. Entre os destaques estão criações de nomes como Pierre CardinChanelSalvatore Ferragamo e Charles Jourdan, além de peças de chapelaria assinadas por Rose Valois e Gilbert Orcel, cujas obras integram também acervos internacionais.

 

Já o eixo “O visível, o invisível: a moda como arte” afirma a moda como linguagem artística e campo de criação. Essas criações, associadas à modernidade do século XX, convivem com um núcleo especialmente dedicado à modista carioca Zulnie David, principal responsável pelas roupas de Eva Klabin entre as décadas de 1940 e 1980. Christian Dior, Coco Chanel, Jean Patou e Marie Martine também figuram entre os nomes que estruturam o eixo. Ao evidenciar sua produção e colocá-la em diálogo com a alta-costura internacional, a exposição propõe uma revisão crítica da história da moda no Brasil, problematizando processos de visibilidade e apagamento histórico e reafirmando a moda como prática artística.

 

Sapato Chanel do acervo de Eva Klabin; obra "Armadura", de Paulo Roberto Leal (1946-1991) - Cortesia Galatea. Foto: Ding Musa

O percurso expositivo reúne obras da coleção permanente da Casa Museu Eva Klabin, peças emprestadas de outros acervos, fotografias de arquivo, indumentárias, objetos pessoais e ampla documentação histórica. Ao todo, são apresentados mais de 130 itens de moda e acessórios, articulados a cartas, convites, menus, listas de convidados, livros de ouro, recortes de imprensa e materiais audiovisuais com depoimentos de amigos e familiares, ampliando as camadas de leitura sobre a trajetória de Eva Klabin. 

 

“Beleza Habitada traduz de forma sensível as diretrizes que orientam a Casa Museu Eva Klabin hoje: pensar a casa como espaço vivo, o acervo como experiência e a cultura como campo de encontro. A exposição reafirma Eva Klabin como uma mulher que compreendia a arte, a moda e os objetos do cotidiano como dimensões inseparáveis do viver. Ao integrar indumentárias, obras de arte, documentos e memórias pessoais aos ambientes, a Casa Museu Eva Klabin se alinha em um diálogo contemporâneo com instituições como o Metropolitan Museum of Art, o Victoria and Albert Museum e o Palais Galliera, que reconhecem a moda como linguagem artística e campo de reflexão cultural”, afirma Camilla Rocha Campos, diretora artística da Casa Museu Eva Klabin.

 

Alinhada ao conceito de resíduo zero, a exposição prevê a doação dos tecidos para instituições de ensino de moda e o reaproveitamento das demais estruturas em futuras iniciativas da Casa Museu Eva Klabin. “Beleza habitada: Eva Klabin, moda e memórias” conta ainda com programação educativa, cursos, palestras e bate-papos pensados por Simone Ckless, estilista e fundadora do Laboratório Carioca de Moda, além de workshops, apresentações musicais e a publicação de catálogo digital.

 

Helena Severo - Curadora

Com formação em Direito pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC/RJ), e mestrado em Ciências Sociais pelo Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IFCS/UFRJ), ocupou cargos de liderança em instituições culturais e educacionais de grande relevância. Foi presidente da Fundação Casa França-Brasil entre 2021 e 2022, e, anteriormente, presidiu a Fundação Biblioteca Nacional de 2016 a 2019. Foi diretora do Centro de Pesquisas do Tribunal de Contas do Município do RJ de 2008 a 2015, e presidiu a Fundação Teatro Municipal do RJ de 2003 a 2006. Nos anos de 2003 a 2004, atuou como Secretária Estadual de Cultura do Rio de Janeiro, e como presidente da Fundação de Artes do Estado do RJ (Funarj). Foi Secretária Municipal de Cultura do RJ de 1993 a 1999, e diretora do Museu da República de 1990 a 1992. Além de sua atuação em instituições culturais e educacionais, é curadora de exposições culturais e artísticas, entre elas “Narciso – A Beleza Invertida” no Farol Santander em São Paulo em 2024, “370 Anos da Rendição Holandesa em Pernambuco”, no Museu do Estado de Pernambuco em Recife em 2024, “Eterno Egito- A Imortalidade nas Coleções Viscondessa de Cavalcanti e Eva Klabin” na Casa Museu Eva Klabin no Rio de Janeiro em 2024, entre outras. Por sua contribuição à cultura e à educação, Helena Severo recebeu várias premiações e honrarias, incluindo a Ordem do Mérito da Cultura da Presidência da República em 1997, o Prêmio Shell de Teatro em 1992, e o Prêmio Coca Cola de Teatro Infantil também em 1992.

 

Brunno Almeida Maia - Curador

Doutorando em Arquitetura e Urbanismo pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP), onde desenvolve pesquisa sobre as relações entre moda e arquitetura, e mestre em Filosofia pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). É autor dos livros Tempos de exceção: ensaios sobre o contemporâneo (2025) e O Teatro de Brunno Almeida Maia (2014), além de contribuir com capítulos em obras coletivas. Publicou ensaios em revistas acadêmicas e culturais, como a Revista do Instituto de Estudos Brasileiros (RIEB USP), Revista ZUM (IMS), Revista do CPF-Sesc e Cadernos da Casa Museu Ema Klabin. Atua como docente convidado na Pós-Graduação em Direção Criativa e Styling de Moda do Senac Lapa Faustolo e no MBA Negócios e Estética da Moda da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), além de lecionar em diversas instituições culturais e acadêmicas, entre elas o Istituto Europeo di Design (IED), a Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP), o Centro Universitário Belas Artes, o Museu de Arte de São Paulo (MASP), o Museu da Imagem e do Som (MIS), o Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM), a Fundação Stickel, as Oficinas Culturais, o Laboratório Carioca de Moda e unidades da rede Sesc SP. Destacam-se seus trabalhos de curadoria em exposições e ciclos realizados na Casa Museu Eva Klabin (RJ), na Casa Museu Ema Klabin, no Sesc Avenida Paulista e no Centro de Pesquisa e Formação do Sesc-SP, bem como sua participação no Grupo de Práticas e Estudos em Curadoria (GPEC/FAU-USP). Foi residente do Núcleo de Estudos Contemporâneos do Museu da Imagem e do Som (NECMIS) e organizador da jornada em homenagem ao centenário de Gilda de Mello e Souza.

 

Leandro Leão - Expografia

Arquiteto, designer e pesquisador com atuação entre São Paulo e Paris. Doutorando em dupla titulação pela Universidade de São Paulo e pela École des Hautes Études en Sciences Sociales (Paris), trabalha na interseção entre investigação teórica e prática artística e projetual. Foi reconhecido por prêmios como o DNA Paris, Prêmios Lusófonos de Criatividade, International Design Awards, Latin American Design Awards, Bienal de Design do Peru, Prêmio Brasileiro de Design e pelo Instituto de Arquitetos do Brasil. Participou de exposições no Centro Universitário Maria Antonia e o Museu de Arte Contemporânea da USP, além do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, entre outras. Expôs em instituições como o MAM Rio e o MAC-USP, possuindo obras no acervo permanente do Museu da Imagem e do Som de São Paulo.

 

Sobre a Casa Museu Eva Klabin:

Uma das primeiras residências da Lagoa Rodrigo de Freitas, a Casa Museu Eva Klabin reúne mais de duas mil obras que cobrem um arco de tempo de cinco mil anos, desde o Antigo Egito (3000 a.c.) ao impressionismo, passando pelas mais diferentes civilizações. A coleção abrange pinturas, esculturas, mobiliário e objetos de arte decorativa e está em exposição permanente e aberta ao público na residência em que a colecionadora viveu por mais de 30 anos. A Casa oferece programação cultural variada, que inclui, além das visitas ao acervo, exposições temporárias de artistas contemporâneos, oficinas, cursos e conferências para adultos e crianças. Enquanto referência no calendário cultural do Rio de Janeiro, a programação musical conta com a série Concertos de Eva, com os Concertinhos de Eva, dedicados ao público infantil, e com o programa Pôr do Sol, shows da nova MPB no jardim. 

A Casa Museu inicia o ano de 2026 como espaço de troca de ideias e aprendizados no presente, mantendo um diálogo constante com o passado e encontrando sua originalidade na combinação entre o clássico e o contemporâneo.

 

SERVIÇO “Beleza Habitada: Eva Klabin, moda e memórias”

Abertura: 31/01 (sábado), das 16h às 20h

Visitação: 31/01 a 24/05 - Quarta a domingo, das 14h às 18h

Local: Casa Museu Eva Klabin (Av. Epitácio Pessoa, nº 2480 - Lagoa Rodrigo de Freitas) - Rio de Janeiro - RJ

Entrada gratuita

Classificação: Livre

 

 

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