09/06/2026 16:34

Fifa pode derrubar posts, publis e campanhas durante a Copa

Restrições pouco conhecidas ditam o que influencers e marcas devem fazer durante torneio; camisa oficial e geolocalização em posts são passíveis de notificação
 

A Copa do Mundo 2026 movimenta US$ 2,8 bilhões (R$ 14,2 bilhões) apenas em patrocínios, publicidade e campanhas digitais. Esse montante vem acompanhado de uma série de restrições impostas pela Fifa durante o torneio: até o que parece inofensivo, como gravar um vídeo usando a camisa oficial da seleção brasileira, pode gerar derrubada de conteúdo, notificações e até punições relacionadas ao uso indevido de propriedades comerciais da entidade máxima do futebol.
 

A Fifa possui registro sobre diversos elementos ligados ao torneio, incluindo nomes oficiais, mascotes, troféus, identidades visuais, tipografias, hashtags e outros ativos comerciais da competição. Por isso, citar “Copa do Mundo” em uma publicidade ou usar uma hashtag oficial em um post de venda criam problema.
 

Foto: Divulgação

“Existe uma diferença importante entre conteúdo editorial e conteúdo comercial. Uma pessoa postar no estádio, torcendo como fã, tende a ser uma situação diferente de usar o clima da Copa para vender curso, produto, mentoria ou serviço. É quando aparece o CTA de venda que o risco jurídico cresce”, afirma a advogada Maria Eduarda Amaral, especialista em direito digital.
 

Segundo ela, o problema é tentar associar uma marca, produto ou serviço ao torneio sem autorização. “A bandeira do Brasil, as cores verde e amarelo e referências genéricas à torcida podem ser usadas de forma respeitosa. O que não pode é usar escudo, camisa oficial, nomes protegidos, símbolos da Fifa ou marcas de patrocinadores em contexto comercial sem licença”, aponta.
 

Marcas que não são patrocinadoras oficiais precisam redobrar os cuidados, pois a Fifa adota políticas rígidas contra o chamado marketing de emboscada. Mesmo sem utilizar diretamente logos, a campanha não pode ter uma associação clara com o evento para gerar venda.
 

“Esse mesmo cuidado vale para lives e reacts durante os jogos. Comentários, análises e reações são possíveis, mas um segundo de imagem oficial ou de áudio da transmissão pode ser suficiente para gerar bloqueio, strike ou desmonetização. O criador pode reagir ao jogo, mas precisa tomar cuidado para não reproduzir material protegido”, declara Amaral.
 

O uso de inteligência artificial também é uma armadilha, pois mesmo que o usuário não perceba, a aplicação de logos, troféus, uniformes ou elementos visuais protegidos, pode ser penalizado. “Dizer que foi a IA que gerou a imagem não elimina a responsabilidade de quem publica. A pessoa ou empresa continua respondendo pelo conteúdo que coloca no ar”, diz.
 

Zona de exclusão

Entre as regras menos conhecidas está a chamada “zona de exclusão comercial”, aplicada no entorno dos estádios oficiais da Copa do Mundo. Em determinadas áreas próximas às arenas, marcas concorrentes dos patrocinadores oficiais podem sofrer restrições de publicidade, venda e ativação comercial. Este modelo já foi adotado em edições anteriores da Copa, para proteger os patrocinadores que pagaram pela associação oficial ao evento.
 

“Durante a Copa existe uma blindagem muito forte em torno dos patrocinadores oficiais. Não é só o digital: o território físico também é protegido. Uma ação comercial com marca não autorizada no entorno do estádio pode ser enquadrada como marketing de emboscada”, afirma a especialista.
 

Até a geolocalização pode virar evidência em um post comercial. Marcar a localização oficial de um estádio em uma publicação com link de venda, cupom ou chamada promocional pode reforçar a associação indevida com o evento.
 

Creators na mira

Com o crescimento da creator economy e da cobertura informal da Copa nas redes sociais, Amaral reforça que o desconhecimento dos limites jurídicos envolvendo a Copa é grande, fazendo com que muitos influenciadores utilizem referências visuais e expressões associadas ao torneio sem perceber que estão entrando em uma área protegida comercialmente pela Fifa.
 

“Para creators, a regra prática é separar torcida de venda. Um post editorial sobre o jogo é uma coisa. Um post com camisa oficial, hashtag protegida, marcação de estádio e link de compra é outra completamente diferente”, completa.
 

Sobre Maria Eduarda Amaral

Maria Eduarda Amaral é advogada especializada em Direito Digital e Propriedade Intelectual. É graduada em Direito pela Escola Superior Dom Helder Câmara, pós-graduada em Propriedade Intelectual pelo IBMEC-BH, especialista em Gestão Jurídica e Proteção de Dados Pessoais pelo IBMEC-BH e membro da ABPI (Associação Brasileira de Propriedade Intelectual).

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