Povos tradicionais denunciam impactos de Belo Monte em novo podcast da Pública
Povos tradicionais denunciam impactos de Belo Monte em novo podcast da Pública
Série de 4 episódios Xingu em Disputa mostra destruição do modo de vida de indígenas e beiradeiros da região
A Agência Pública lança nesta quarta (27) o podcast Xingu em Disputa, série em quatro episódios que mergulha na transformação sofrida pelo rio Xingu após a construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte. A produção foi feita a partir de documentos oficiais e entrevistas realizadas por Isabel Seta, repórter da Pública.
Inaugurada há quase 10 anos, a primeira usina “100% brasileira” é um projeto antigo, que data dos anos 70, durante a ditadura militar (1964-1985). Com o antigo nome de Kararaô, o projeto foi alvo de intensa mobilização indígena, marcada pela luta de lideranças como Tuíre Kayapó, e foi engavetado no final da década de 80 para ressurgir durante o segundo mandato de Lula. A Usina é vista como um “monstro devorador” da biodiversidade e riqueza cultural do Xingu pelos povos indígenas e comunidades tradicionais da região.
“A natureza, ela tá presa. Ela foi presa, ela tá sendo massacrada. O Rio Xingu, ele tá sendo escravizado”, relata a pescadora Sara Rodrigues Lima no primeiro episódio de Xingu em Disputa.
Ao longo dos quatro episódios, a série narrativa viaja pelos relatos dos beiradeiros e indígenas para contar a história a partir da visão de quem foi mais atingido pela destruição trazida pela Usina, a qual afetou não só o modo de vida dos povos, mas os ciclos reprodutivos dos peixes, da natureza como um todo. Além disso, mostra a organização dos povos tradicionais para reivindicar o direito de retornar ao rio. O podcast é lançado no momento em que o Ibama analisa se renova a licença de operação da hidrelétrica, vencida há quatro anos, e no ano em que Belém (PA) sedia COP30 — a mais importante Conferência do Clima da ONU.
Isabel Seta, responsável pelas reportagens, produção e roteiros do podcast, conta que a ideia para a série veio a partir de uma viagem à Altamira, no Pará, onde ela foi para fazer uma reportagem sobre os impactos socioambientais da usina de Belo Monte em Volta Grande do Xingu. Ao chegar na região, Seta descobriu que os povos tradicionais que habitam o Xingu há décadas enfrentam um fim de mundos. Os indígenas e beiradeiros não viviam só do rio Xingu e de tudo que ele dava, como alimentação, renda, meio de transporte e lazer, eles viviam com o Xingu.
“Era uma comunicação que a gente tinha com o rio, que nós, povos tradicionais, não sabemos explicar porque a gente escuta, a gente sente, a gente bebe o rio. A gente é o rio. O rio era livre”, conta Sara em entrevista à repórter.
“A voz da Sara me fazia sentir toda a indignação dela. Foi aí que eu percebi que mais gente precisava escutar o que os povos que vivem na beira e nas ilhas do Xingu têm a dizer sobre Belo Monte. Não bastava só escrever sobre. Era preciso ouvi-los. Foi assim que nasceu a ideia do podcast Xingu em Disputa. No podcast, são os beiradeiros e indígenas que nos conduzem pela transformação forçada do Xingu e contam sobre duas iniciativas inéditas, protagonizadas por eles, para recuperar seu rio e seus modos de vida”, explica Seta.
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